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07/03/2015

Resenha: A Idade dos Milagres

A Idade dos Milagres, de Karen Thompson Walker
Páginas: 216 | Editora: Paralela
E se os dias fossem mais longos? A proposta desse livro é, para mim, inédita, primeiro porque traz um foco diferente, algo que a autora chamou de “desaceleração”, que nada mais é que as nossas 24h diárias sendo esticadas para 28h, 30h, 32h... e assim por diante. A rotação da Terra está ficando mais lenta, prolongando os dias e mudando todo o ambiente terrestre, desde os pássaros caindo mortos do céu, até a mudança da gravidade, a síndrome que começa a se espalhar nas pessoas e a impossibilidade de cultivar alimentos.

O pânico logo se espalha e os moradores desse planeta decadente, começam a acumular mantimentos para sua sobrevivência, mas sobre ordens do governo, continuam a viver na hora do relógio, sendo assim, tem dias que amanhecem na escuridão e noites brancas, onde fica difícil dormir com o sol entrando pelas frestas da janela. Mas a maioria continua lutando por sua antiga rotina, enquanto outros são a favor do “tempo real” e acordam com o nascer do sol e ficam acordados durante toda parte clara do dia, que conforme a Terra vai diminuindo a velocidade, passa a ter 24h de claridade e 24h de escuridão, quando os adeptos do “tempo real” dormem.
“Mas acho que aquilo que preocupa mais nunca é o que acontece, no final das contas. As catástrofes reais são sempre diferentes – inimagináveis, desconhecidas, impossíveis de prever.” – pag. 28
Julia está na pré-adolescência, descobrindo o primeiro amor, sofrendo com a mudança nas amizades e com os problemas familiares. O que me surpreendeu foi, que, a autora, Karen Thompson Walker, de maneira delicada, mesclou imperceptivelmente os dois pontos importantes da história, sendo o primeiro a desaceleração da Terra e o segundo, a vida de uma garota cheia de conflitos. Com uma narração em primeira pessoa de uma Julia mais velha contando seu passado, de como foi a mudança do seu planeta e a de sua vida.

O único ponto da narrativa que não me agradou foi a constante insinuação de que algo iria acontecer no futuro, a autora sempre inseria frases que nos diziam que no futuro aconteceria algo que ela ainda não tinha contado, como por exemplo “Minha mãe estava cansada, mas como eu descobriria em breve, não era por causa do trabalho” ou “Caiu uma flor, mas tinha algo de assustador por trás, que só descobri um tempo depois” (nenhuma dessas frases são do livro, as inventei como exemplo). Essa promessa da revelação de algo, na minha opinião, foi uma maneira que a autora achou de inserir um mistério que ela não conseguiu de outra maneira e ficou frustrante para o leitor, não me incitava a ler para descobrir o que era, mas quebrava o clima do momento construído na cena, sendo que essas revelações poderiam ter sido apresentadas na situação correta, que dariam mais impacto do que com essas promessas que fazem o leitor criar uma expectativa que muitas vezes pode não ser preenchida.

O resto do livro é extremamente interessante e me prendeu tanto que quando eu voltava para minha vida real, tinha dificuldade de perceber que a Terra não tinha desacelerado e eu ainda tinha 24h diárias e nenhum minuto a mais que isso. Por isso, recomendo esse livro pra qualquer um que esteja aberto a uma reflexão sobre o nosso mundo e os perigos que podem nos esperar em um futuro não tão distante assim.

PS: Só pra vocês saberem que, em 2015, temos um segundo a mais. Será o início da desaceleração? Confira a matéria do G1.